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A DESCOBERTA

Bruno Rodrigues, em 27.10.13

   Ainda cambaleava quando chegou o momento da segunda ecografia. Por incompatibilidade de horários vimo-nos forçados a realizá-la na CUF Descobertas, onde existiam consultas até mais tarde. O ambiente à porta do consultório era despreocupado e divertido. Eu falava da faculdade, a minha companheira do emprego... Um motivo era razão para esta alegria: íamos saber o sexo do nosso bebé! Quando chegou à nossa vez, lá entramos para o consultório. Sentei-me numa cadeira ao lado da minha Maria e ficámos os dois à espera do exame que não tardou.

   Desta vez o mito era realidade: não consegui distinguir um pé de uma mão. Era tudo tão disforme que por muitas raras vezes conseguia identificar seja o que for. Quando chegou a vez de examinar o coração, e percebia-se facilmente que se tratava do coração pelos movimentos cadenciados e repetitivos, a médica demorou-se... Fazia algumas caretas, dirigia-se a outros sítios do corpo da menina e logo voltava. Começámos a suspeitar que algo não estava bem.

   Quando o silêncio e a espera se tornaram demasiado incómodos arrisquei a pergunta:

        – Doutora, passa-se alguma coisa?

   Um pouco hesitante, ela lá respondeu:

        – Não consigo ver o ventrículo direito.

   Sem realmente perceber as implicações daquela afirmação pensei comigo mesmo «e então qual é mesmo o problema?». Quer dizer, nas aulas, quando era miúdo, lembro-me de ter falado do sistema cardiovascular e sabia como era constituído anatomicamente um coração mas, naquele momento, aquela informação parecia-me sem sentido. Só quando conversámos sobre a natureza e a gravidade do problema é que caí em mim. Os meus olhos encheram-se de lágrimas e quase nem consegui mais falar. De imediato concluiu-se o exame, a médica arriscou um palpite sobre qual seria a cardiopatia e mandou-nos com urgência falar com a nossa médica de família para que nos encaminhasse para mais alguns exames na Maternidade Dr. Alfredo da Costa. Lá foi confirmado o diagnóstico: Hipoplasia do Ventrículo Direito com Atresia da Válvula Tricúspide e Estenose da Artéria Pulmonar. O que é isto? Já lá vamos...



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