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AMNIOCENTESE

Bruno Rodrigues, em 27.11.13

    Quando entrámos na Maternidade Dr. Alfredo da Costa, dois dias depois da ecografia das 20 semanas, íamos a fim de realizar o primeiro de muitos ecocardiogramas. Sem saber muito bem o que nos esperava o clima era tenso e pesado, bem contrastante com aquele sentido no dia em que vimos a nossa menina pela primeira vez. A nossa esperança, naquele momento, era de que nos dissessem que o anterior diagnóstico errara e tudo estava normal. Mas não foi assim: realizou-se nova ecografia e, mais uma vez, viu-se claramente que o coração estava malformado. Pedimos algumas explicações ao médico que nos acompanhou e o cenário descrito foi o mais negro: a nossa filha poderia não resistir ao parto e, se resistisse, a esperança de vida rondaria um ou dois anos, passados na maior parte do tempo no hospital. Portanto, nem a qualidade de vida fazia valer a pena o pouco tempo que lhe davam. Seriam necessárias três cirurgias cuja taxa de mortalidade rondaria os 30% cada. Pensámos que se sobrevivesse à primeira, muito dificilmente sobreviveria à segunda e à terceira. Ora, descrito assim o pano de fundo sob o qual decorreria a vida da Lou facilmente poderão imaginar como nos sentimos. Uma das imagens que me assombrará até o fim dos meus dias é a de ver a minha mulher desesperada e em lágrimas falar a uma das enfermeiras nestes termos: «vamos perder a nossa menina».

    Fizemos o aguardado ecocardiograma e confirmou-se de que se tratava de Hipoplasia do Ventrículo Direito com Atrésia da Válvula Tricúspide e Estenose da Artéria Pulmonar. Como falámos noutra ocasião, cerca de 5 a 8% do total das cardiopatias congénitas têm origem em anomalias cromossómicas como, por exemplo, trissomia 21, trissomia 13 ou trissomia 18. Para o despiste destas doenças foi-nos agendada a realização de uma amniocentese.

 

   Amniocentese - A amniocentese é um método de diagnóstico pré-natal que consiste na recolha duma pequena quantidade de líquido amniótico que envolve o feto e é aconselhada aos pais perante a probabilidade de deformações genéticas durante a gravidez, o que era o caso da nossa Lou. Este procedimento pode ser realizado logo que exista quantidade suficiente de fluido em volta do feto, para que possa ser recolhida uma amostra com segurança, entre as 15 e 20 semanas de gravidez. As amostras demoram alguns dias, em geral uma ou duas semanas, a produzir resultados. Embora a amniocentese seja considerada um exame seguro, trata-se de um procedimento invasivo e que, naturalmente, implica alguns riscos. Cerca de uma em cada 200 mulheres sofrerá uma infecção ou algum outro tipo de complicação em consequência deste exame, que infelizmente levará à perda do bebé. Assim, após a realização da amniocentese a grávida deve permanecer em repouso durante dois dias, sem realizar esforços que interfiram com a normal recuperação do útero e que possa aumentar o risco de complicações.

   Este procedimento realiza-se do seguinte modo: o médico determina a posição do feto através de palpação, e a fim de evitar eventuais lesões. Com ajuda de uma ultra-sonografia, a pele é preparada e é introduzida uma agulha de calibre 22 e 12,5 cm de comprimento no interior do útero. É, depois, adaptada uma seringa de 10 ml para extracção do líquido, que deve ser protegido da luz para evitar a degradação da amostra.

 

Exemplos de Amniocentese 

 

   Realizado o exame, o resultado chegou ao fim de alguns dias depois: a cardiopatia da nossa filha era um evento isolado e, consequentemente, não relacionado com qualquer trissomia. Assim, decidimos dar uma hipótese à Lou: se ela quisesse viver faríamos de tudo para que o pudesse fazer. Começavam a chegar, finalmente, as boas notícias...


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